Existem palavras que a gente nunca espera ouvir de certas bocas. Existem sons que não combinam com a memória que guardamos de alguém. Recentemente, ouvi dela um xingamento ríspido, cru, que nunca havia cruzado o nosso espaço, nem nos piores dias. Foi um "filho da puta" lançado sem hesitação, uma granada jogada em um terreno que já estava minado.
O que dói não é o palavrão em si, mas o que ele representa: a morte da reverência.
Sinto que a distância física — esse hiato entre o que fomos e o que não sabemos se seremos — está criando uma nova pessoa nela. O tom de voz mudou. A paciência, que antes era um mar calmo, agora é um deserto seco. Essa nova forma de falar comigo é o reflexo de quem está cansada de esperar por mudanças que demoraram a vir, ou de quem já começou a se despedir sem dizer "adeus".
Estamos em um limbo. Sem saber se haverá um "nós" amanhã, as palavras deixam de ser pontes e passam a ser muros. Quando o respeito se dissolve, o que sobra é essa agressividade íntima, um jeito de ferir quem já está no chão.
Não sei se ela ainda me vê como o pai da sua filha ou como o homem que ela amou. Hoje, pelos termos que usa, pareço ser apenas o culpado de uma história que ela quer esquecer. E o pior de tudo é saber que, no fundo, eu não tenho argumentos para exigir um tom diferente.

0 Comentários