O Peso do Nada

 O "zero" é um lugar extremamente barulhento. Ao contrário do que dizem, recomeçar do nada não é um silêncio pacífico; é o som constante das portas que se fecharam e o eco das decepções que deixei pelo caminho.

Hoje, habito um cenário que eu acreditava ter deixado para trás. Voltei para a casa dos meus pais, mas não como o filho que busca acolhimento, e sim como um estranho que carrega o peso de uma acusação e o rastro de um vício que devorou tudo o que eu tinha. Perdi o teto, o crachá no peito e, o que mais dói, o brilho no olhar da minha esposa e o abraço diário da minha filha. A distância delas não é apenas física, medida em quilômetros entre cidades; é uma distância feita de vidro quebrado.

Três meses atrás, eu achei que tinha vencido. Engoli o orgulho, aceitei um chefe tóxico, cumpri horários desumanos e me convenci de que a força de vontade bastava. Mas o vício em apostas é um mestre do disfarce. Ele me esperou na curva da exaustão. Atraí para mim, novamente, o fundo do poço — só que, desta vez, o poço tem espinhos que podem me marcar para sempre.

Não sinto o conforto de um lar aqui. Sinto a vigilância do silêncio, a desconfiança que paira no café da manhã e o julgamento silencioso de quem não entende como cheguei a esse ponto. A vontade não é de morrer, é de se tornar invisível. Desaparecer para que o meu erro pare de sangrar em cima de quem eu amo.

Talvez o meu verdadeiro recomeço não seja recuperar o que perdi, mas aceitar que o castigo de estar longe é a única forma de garantir que, daqui para frente, eu não cause mais nenhum dano. O exílio é amargo, mas é honesto.

Postar um comentário

0 Comentários